PERCEPÇÕES DA BIENAL DO LIVRO/2016

 

Vi pessoas de todas as idades revirando as prateleiras de diferentes editoras e buscando identificação com os livros. Isso foi energizante para quem, como eu, gosta de escrever e acredita que a leitura é uma das melhores formas de aprender! Observando o público e suas buscas, escolhas e reações, eu pude constatar que, principalmente o adolescente e o jovem tinham seu maior interesse em livros escritos por famosos da internet: blogueiras e youtubers. Essas pessoas com milhões de seguidores passaram agora a investir também na publicação de livros. E curiosa como sou, fui logo buscando entender o porquê do frenesí desse  público específico fazer tanta questão por esse tipo de livros. Tratei de observar o conteúdo e encontrei estes autores falando de suas vidas, relacionamentos, conflitos familiares, bullying, moda, gafes e uma série de histórias de humor. Não há como negar, os youtubers fizeram muito, mas muito sucesso na Bienal.  O grande número de fãs que aguardavam e disputavam os espaços na área onde se apresentavam e davam seus autógrafos, era imensa.

Eles estavam logo ali, próximos ao estande da editora do meu livro, a Nova Literarte. Acompanhei tudo de pertinho. A turma chegava cedo. Eles ficavam sem comer, passavam horas aguardando esperando as “celebridades” chegarem. E quando chegavam, era um verdadeiro alvoroço. E na mesma intensidade, os livros recém-publicados pelos youtubers também foram recordes em vendas. Eles podiam ser encontrados em diversas livrarias e todas elas os colocavam em destaque. E o público jovem não deixou por menos: avançava sobre os livros e já liam ali, em pé mesmo. Ou sentavam em qualquer lugar logo que saíam para conhecer as ideias e pensamentos desses autores.

Por que esse fenômeno vem acontecendo? Famosos pela internet, não desperdiçariam essa oportunidade de inovar e expressar o que pensam. Sabem que possuem a disposição uma galera imensa interessada em suas ideias e opiniões. O fato das editoras estarem investindo nesse tipo de autores tem uma explicação: elas querem e precisam vender. A própria crise econômica que o país atravessa corroborou com esse novo evento autoral. Constatou-se poucos lançamentos de autores tradicionais e mais conhecidos nesta Bienal. E com a ascensão da internet, os blogueiros e youtubers foram se tornando conhecidos e conquistando seu espaço. E pelo que parece, chegaram para ficar. Por isso, umas das maneiras de popularizarem-se ainda mais é através do lançamento de seus livros. As editoras não tardaram abrir as portas ou talvez, até mesmo, tenham procurado e demonstrado mais este caminho, pois viram nestes uma oportunidade mercadológica.

Ao perguntar uma das fãs dos youtubers Gustavo Stockler e de Kéfera  Buchmann porque queria tanto vê-los, ela respondeu: “Para poder dizer que vi, recebi autógrafo e tive contato com pelo menos uma pessoa famosa nesta Bienal. Para postar no facebook e mostrar aos meus amigos que não vieram”.  Ao perguntar outra jovem porque os youtubers têm tantos seguidores, porque eles atraem tantos assim, adolescentes e jovens, ela me respondeu: “Eles são gente como a gente. Falam de coisas que queremos ouvir. Eles têm coragem de dizer o que nós gostaríamos de falar e não falamos. Acho que é uma identificação. Eu amo o jeito deles. São corajosos e sem papas na língua!”

(???)

Outra preferência entre esse público foram todos os livros do Harry Potter e afins. Tudo o que está relacionado a mitologia e ficção. Todos os livros que trazem fascinantes criaturas mágicas, histórias de alquimistas, feiticeiros e figuras imaginárias misturadas com as reais.

Há controvérsias em denominar esse tipo de livro como sendo literatura. Mas essa é outra discussão que não farei aqui neste espaço. Meu objetivo é trazer a vocês a minha percepção de interesses e público que encontrei na Bienal. Literatura ou não, esses livros que estimulam e permitem muita imaginação, caíram no gosto popular. Tanto que pude presenciar que o espaço de exposição da editora Rocco foi um dos mais disputados. Foi um verdadeiro aperto e “empurra e empurra”. É inegável o sucesso do fenômeno Harry Potter. Ignorar isso seria desprezar a realidade dos fatos. Somando o número de páginas dos seis primeiros livros da série, chega-se ao resultado de mais de 2000 páginas, sem quaisquer ilustrações. Mesmo assim, o jovem lê.  Isto é mais desafiador para um jovem leitor do que, por exemplo, muitos jogos eletrônicos sofisticados. O conteúdo dos livros engloba ação, aventura, amizade, lealdade, magia, suspense e mistério, o que é altamente atrativo para esses leitores.

Diante dessa “nova literatura”, questionada por muitos se pode ou não ser assim chamada, as perguntas que ficam são:

  1. Que legado estamos deixando para esse nova geração? Quais valores e interesses conseguimos defender e perpetuar? E quais se perderam?
  2. Nossas práticas escolares de leitura estão adequadas para que se possa cumprir a tarefa de formar leitores literários?
  3. Como proporcionar situações reais visando ao aumento do contato do aluno com o texto literário, não se limitando apenas a resumos de livros, a estudos sobre a história da literatura e biografia de autores?
  4. Já se pensou em criar espaços que promovam a leitura espontânea, cujo objetivo seja apenas ler – de preferência a partir de escolhas do próprio aluno?
  5. Esse tipo de literatura  poderia servir de “alavanca” para formar leitores literários, mais maduros e prontos a absorver uma literatura madura?

A internet e o evento de blogueiros e youtubers está trazendo uma nova linguagem para os livros, isso é fato. Folhando alguns, foi possível constatar a presença de uma linguagem simples, coloquial, a mesma usada na internet todos os dias. Constatamos que possuem pouca profundidade dos temas, claramente incompatíveis com os grandes autores da nossa literatura.  Contudo, uma coisa é certa: boa ou ruim, a leitura acontece. De fácil leitura. O livro já havia sido em partes recusado há bastante tempo. Parecia até que tinha seus dias contados. A tela dos celulares e notebooks ocupou muito do seu espaço. Mas o livro está por aí, volta às mãos da galera mais jovem. Agora está presente com tudo, com outra roupagem: nova linguagem e novo conteúdo.

Os jovens estão lendo. E alguns, entre ler e não ler é preferível que leiam o que gostam. Agora precisamos pensar em como fazer esses mesmos jovens descobrir o mesmo gosto por temas importantes, bem explorados, que façam diferença na vida deles. A leitura que ora interessa, acontece por identificação. Os mensageiros falam das coisas que os jovens vivem, sentem e fazem. São transparentes e sem pudor ao falar e assim se sentem representados. Isso pode ser uma pista…como fazer isso na prática? Deixo aqui a provocação, para os pais e professores que acompanham esta página…Como fazer?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s